segunda-feira, 11 de julho de 2016

CRÔNICA DO DIA: "DE REPENTE 50!"

Foi há oito meses.
Sim, vocês podem estar se perguntando por que alguém se lembraria que tem cinquenta anos de vida, quando já está prestes a completar cinquenta e um. Parece estranho e confuso. E é mesmo. O que nos faz lembrar de repente que já estamos por aqui há meio século? Pode ser uma palavra, um gesto... No meu caso foi uma nota de falecimento.


Quando abri a rede social pela manhã, a primeira notícia que apareceu foi o comunicado da morte da mãe de uma amiga. Ao chegar ao trabalho, a primeira mensagem do correio eletrônico era a informação do local do sepultamento. E aí sim, o gatilho da consciência da passagem do tempo foi disparado. Com ele, várias memórias vieram à tona em uma fração de segundos. Um turbilhão de emoções e lembranças.

Há 26 anos meu pai foi sepultado no mesmo local. Exatamente há 26 anos. No mesmo dia. No dia do seu aniversário.

Me peguei pensando como o curso do tempo parece veloz, voraz... Outro dia eu era adolescente. Outro dia eu estava na faculdade. Outro dia... 

Meu pai voltou aos meus pensamentos. Já aposentado, gostava de ficar todas as manhãs na praça com os amigos, também aposentados. Permaneciam lá até a hora do almoço. Conversavam sobre as notícias do dia. Meu pai adorava a coluna do Castello, no canto esquerdo da página dois do Jornal do Brasil. Ele era um leitor assíduo deste jornal e comentar sobre política era seu passatempo predileto.

Com o passar do tempo, percebi que meu pai já não ia mais a praça todos os dias. Ficava sentado no sofá com o olhar vago. Resolvi lhe perguntar se não ia a praça naquele dia. Ele respondeu que estava indisposto. Avisei que um de seus amigos havia perguntado por ele. Ele pareceu animar-se, discretamente. Até que descobri o que estava acontecendo. Dois deles haviam morrido. E isso estava deixando o meu pai deprimido. Afinal, na idade dele, vendo os amigos partirem, é natural que se pense sobre a sua própria data de partida.

Lembrar desse episódio me fez recordar de uma palestra que assisti sobre o livro "Viver é a melhor opção", com o jornalista André Trigueiro. Ele mencionou sobre a depressão que acomete algumas pessoas, quando chegam na fase mais madura da vida e o sentimento de perda que se pode experimentar, quando a vitalidade diminui. Esse sentimento, além de assustador, pode trazer a tona emoções que não prevíamos. Na palestra, Trigueiro ressaltou o cuidado que devemos ter com nossos idosos nesse período de mudanças, em que perde-se agilidade, perde-se memória, perde-se saúde, perde-se amigos, familiares... "É fundamental não descuidar da socialização desse segmento", orienta o autor.




Foi exatamente neste instante que percebi a passagem do tempo para mim mesma. Tanta coisa mudou nos últimos cinquenta anos. A comunicação, os transportes... Flashes passaram rápidos pela minha mente, como o dia em que percebi que já não dançava com a mesma desenvoltura de antes, ou quando comentei sobre o telex e as pessoas a minha volta me olharam como se estivessem se perguntando "do que ela está falando?" Ou quando você chega, está todo mundo comentando sobre a minissérie brasileira Ligações Perigosas e você fala empolgada sobre os desfechos da história, comparando os finais dos protagonistas no livro de Choderlos de Laclos e no filme homônimo com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeifer. Aí alguém diz "Fatinha, você está dando spoiler!!!" Só aí você se dá conta de que as pessoas a sua volta eram muito jovens na época do filme, algumas nem tinham nascido. Só há uma coisa a fazer: pedir desculpas e torcer pro autor da série brasileira usar sua licença poética e mudar o final da história. Ou comentar que o desfecho do filme foi diferente do final do livro. Ah, mas essa informação também está na rede, gente! E é tão bom comentar sobre as histórias que nos marcaram... Parece que foi ontem que assisti a cena da Michelle Pfeifer, sofrendo por amor e dizendo "that's enough" (basta). Que cena triste! Inesquecível!

Além das situações que são até engraçadas, chegar à idade madura nos dá a certeza do quanto somos efêmeros, do quanto nossa passagem por aqui é breve e rápida. E é nesse momento que devemos tomar cuidado. Me lembro que na referida palestra, Trigueiro, o autor do livro, sugeria algo como reinventar a vida nesta fase, manter-se ocupado, cultivar as amizades. Talvez não seja fácil, mas parece uma proposta interessante. Ele mesmo, prestes a completar 50 anos, contou que tem pensado muito no assunto. Pois é, mas como reinventar-se? Como descobrir o prazer na nova fase? "Se cada fase da vida tem algo de importante para nos ensinar, é preciso descobrir o que está reservado para nós no ocaso da existência. Tentar fazer isso com algum espírito de aventura pode ser algo interessante", sugere ele.

Maternidade e maturidade

Fiquei pensando sobre essa questão da aventura... Me veio a mente a questão da maternidade, para mim, uma das maiores aventuras da vida! Maior, mais difícil, mais desafiadora e mais surpreendente do que qualquer voo rasante em cima dos dragões no filme Como treinar seu dragão

Apesar de não ter nenhum impedimento físico, deixei para mais tarde o momento de encarar esse desafio e vivenciar uma das experiências mais gratificantes da vida. Não me arrependo. Chegou quando tinha que chegar. No momento certo. No momento em que, definitivamente, estou entrando na fase madura da vida. Nesse instante em que percebemos o quanto o tempo é precioso e a saúde fundamental, observar uma nova vida florescendo, renascendo, transformando-se, descobrindo-se é... Fantástico! Enriquecedor! 

Eu sei, vocês podem dizer que também isso é passageiro. É verdade. É sim. Criamos os filhos para o mundo, assim como nós um dia também fomos criados. E quando chegar a hora deles alçarem voos maiores, nós podemos sentir toda a solidão desse momento. O que fazer? Aceitar mais esse desafio. E sabe o que eu acho? A socialização que o autor do livro menciona acima é muito importante. Cultivar as amizades antigas, alimentar as novas que chegam, afinal através dos filhos, fazemos tantos novos amigos, não é mesmo? Talvez esse seja o caminho, compartilhar experiências com quem está vivendo momentos semelhantes.

Mas, por enquanto, ainda estou vivendo essa aventura de observar o desenvolvimento da vida em toda a sua plenitude e posso garantir, estou adorando. Dificuldades? Certamente que existem. E são muitas. Por isso é tão desafiador. Quer coisa melhor para fazer a adrenalina subir do que um bom desafio? São pouco mais de dez anos de pura adrenalina. Mas também temos momentos de poesia...

Outro dia, ao buscar meu filho após o trabalho, lhe dei um forte abraço e disse: "olá, melhor parte do meu dia!" Ele sorriu, me abraçou e falou com ar enigmático (aquele em que você não sabe exatamente o que a criança está pensando): "Mãe, você é tão engraçada!" No dia seguinte, quando fiz o caminho inverso e fui deixá-lo no seu destino antes de partir para o trabalho, nos despedimos e quando já ia indo embora, ele segurou meu braço e disse: "bom trabalho, melhor parte do meu dia!" e sorriu com ar maroto. 

É, tenho certeza que vou sentir falta dessa aventura, quando ela tomar outro rumo e assumir novos contornos. Mas, por enquanto, vou vivendo, curtindo e apreciando cada momento desta fase, que exige concentração, disposição, energia, criatividade, dedicação e, sobretudo, amor para executar a tarefa. Amor, a chave de tudo! Em todas as fases da vida!

terça-feira, 21 de junho de 2016

CRÔNICA DO DIA: EDUCAÇÃO OLÍMPICA.

No último sábado estive no Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o CAp-UERJ, que está com suas atividades paralisadas por conta da greve dos funcionários e servidores do estado. 


Ocupado pelos estudantes há pouco mais de um mês, é triste ver o colégio, um dos mais conceituados do Rio, sem o efetivo de estudantes que deveria estar lá. Mas os "ocupantes" tentam dar lições de resistência e cidadania. Digo resistência, pois é preciso muita força de vontade para encarar a precariedade das instalações da unidade, que funciona provisoriamente onde antes funcionou um hospital. Como o provisório acabou virando permanente, por conta da falta de interesse das autoridades, quem estuda ou trabalha no local foi tentando se adaptar ao ambiente que não oferece uma saída alternativa em caso de incêndio, não conta com os requisitos necessários de acessibilidade e também não oferece a merenda escolar gratuita, como deveria ser, já que o colégio é público. Em vez disso, o que vi foi uma montanha de entulho de uma obra que sequer começou e que era a promessa do tão desejado e sonhado bandejão do CAp. 

Apesar de todo o desalento ao observar as instalações físicas da unidade, me impressionou a qualidade da ocupação pelos adolescentes. Confesso que quando soube da ocupação, fiquei reticente e preocupada com os estudantes dentro da escola, sozinhos, sem nenhum tipo de disciplina institucional ou supervisão. Mas eles deram um exemplo de engajamento em defesa da sua escola. A ocupação do CAp promove aulões de biologia, sessões de cinema, debates, atividades para a turma do Capinho, como é chamado o prédio onde estudam os alunos do ensino fundamental primeiro segmento, e também torneios de futebol. Aliás, a olimpíada do CAp é um evento que mobiliza toda a comunidade escolar e acontece no segundo semestre. Enfim, é uma ocupação de resistência mesmo, mas com a alegria, disposição e idealismo próprios dos adolescentes.

Mas neste sábado estava acontecendo também um outro evento: a assembleia dos pais!

Pois é, como estão os responsáveis dos 1.100 alunos da instituição? Divididos. Angustiados. Irritados. Impacientes. Revoltados. Cansados. Sim, percebi na fisionomia dos cerca de 60 presentes na assembleia esse misto de sentimentos. Uns defendem a greve. Outros querem as aulas de volta a qualquer custo. Outros pedem por essencialidades, como aulas para algumas séries consideradas prioritárias segundo suas opiniões parciais. 

Conversei com um pai na saída. Desanimado, apesar de querer muito o retorno das aulas, ele acredita que isso ainda vai demorar. Após segundos de reflexão, fiz o seguinte questionamento: "se esquecermos os pais, os docentes e os alunos, e analisarmos a situação apenas como um cidadão comum, sem vínculo nenhum com a instituição, você voltaria de uma greve com menos garantias do que quando entrou? Lembrando que agora nem os salários estão garantidos." Após um piscar de olhos, a resposta é taxativa: NÃO.

Mas e como ficam todos os envolvidos? Parados, inertes, aguardando que políticos inescrupulosos decidam o futuro das suas vidas, dos seus filhos, dos seus irmãos, dos seus amigos? 

Confesso que saí de lá muito triste, contagiada pelo desalento daqueles pais que se reuniram em mais uma manhã de sábado, para tentar pensar juntos em maneiras de se fazerem notar pelas autoridades. Mas a demora proposital em atender ao mínimo necessário para que a instituição volte a funcionar, vai enfraquecendo o movimento e afastando até os mais convictos. Faz parte da estratégia de quem não tem o menor interesse na educação, como é o caso desse caótico governo do estado do Rio de Janeiro.

Porém, no domingo, quando meu filho e eu cuidávamos do terrário, elaborado por ele e seu grupo no ano passado e que ficou sob sua responsabilidade no final do ano letivo, tive um sopro de esperança ao constatar que o mesmo está cada dia mais vivo e lindo. Imediatamente disse a ele: "esse terrário é o símbolo da resistência da educação pública de qualidade do nosso estado". "Por que, Mãe?", perguntou. "Contrariando as expectativas, ele está resistindo e sabe por quê? (Me olhou com olhos curiosos) Estamos cuidando dele com muito carinho, porque queremos que ele prospere. Assim deveria ser tratada a educação, com carinho, cuidado e dedicação. Vamos fotografar e mandar para os seus amigos. Que tal?"





Enfim, depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que só incomodando muito aos donos do poder é que aquelas pessoas, daquela escola de excelência, onde todos os anos milhares de pessoas sonham e lutam para entrar, vai conseguir alguma coisa. Só se unirem esforços e JUNTOS se fizerem presentes nas audiências públicas, nas visitas à ALERJ, nas assembleias... Somente JUNTOS conseguirão ter êxito em alguma coisa. Divididos serão apenas motivo de chacota e mais descaso por parte das autoridades. 

E então? O que decidem? Deixar que um governo, que administra mal as contas públicas e levou o estado a esta crise absurda em todos os níveis e setores sele o seu destino? Vale a pena desistir depois de tantos sacrifícios e ceder a vitória a esses que estão no poder de passagem? Pensem nisso. Refresquem suas ideias e comecem a colocar a "boca no trombone". Usem todos os canais de comunicação que puderem. Não desistam! Nosso estado precisa de mais escolas como o CAp. E não o fim dela. 

Não permitam que este governo deixe como legado essa educação olímpica do descaso. Deixem vocês, estudantes, professores, funcionários e pais o legado de um dos mais importantes valores olímpicos: SUPERAÇÃO! 

Boa sorte!

sexta-feira, 3 de junho de 2016

PAPO DE MÃE: "PORCO MALDITO!"


Hoje, pela manhã, a caminho do trabalho, ao lado do meu jovem filho, que está lendo "A revolução dos bichos", fui surpreendida pela seguinte afirmação:


- Mãe, proclamaram a República! E esse porco maldito, o Napoleão, não sai do poder!


Ainda pensativo e, ao mesmo tempo, surpreso, continuou:


- O cavalo morreu... Nem conseguiu se aposentar!

- Que pena, Filho! Logo o cavalo, aquele trabalhador incansável!...


Após deixá-lo em seu destino, fiquei pensando... Que história atual essa do George Orwell!!!

(George Orwell lançou "Animal Farm", "A revolução dos bichos" em português, em 1945)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

CARTA ABERTA A QUEM PODE RESOLVER A SITUAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO RIO DE JANEIRO.

Não há como ficar indiferente às notícias sobre a ocupação das escolas em todo o estado do Rio de Janeiro. A ocupação divide opiniões e acirra ânimos em todas as frentes, alunos, pais, autoridades... 


Apesar de ser uma decisão controvertida, a ocupação trouxe a público os graves problemas vividos pelas escolas do Estado. Falta de segurança, de limpeza, de material escolar, de professores... Em algumas unidades, os alunos encontraram material escolar novo e totalmente abandonado, expondo a todos o mau uso, a falta de organização, a falta de controle e a má administração do dinheiro público por parte dos gestores desses recursos. 


A greve da educação no Rio de Janeiro já dura três meses. E o que fizeram as partes envolvidas para tentar resolver a questão? Não muito... Por quê? Será falta de diálogo? Falta de propostas que tenham o objetivo de resolver de fato a questão? Falta de boa vontade? Talvez... Mas de quem? 

De um lado temos a Secretaria Estadual de Educação (SEEDUC), a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), a Assembleia Legislativa do Estado (ALERJ) e o próprio chefe interino do executivo, o governador em exercício, Francisco Dornelles. Todas essas equipes juntas não conseguem resolver, pelo menos, um problema básico e primordial, o pagamento em dia dos seus servidores e terceirizados. Sem estes últimos, responsáveis pela limpeza, conservação e segurança, muitas unidades ficam sem condições mínimas de funcionamento. Minha pergunta a todos vocês, caríssimos secretários, governador e afins, como vocês acham que essas pessoas, esses trabalhadores sobreviverão sem os "mínimos" salários há tantos meses, como na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, uma das maiores e melhores universidades públicas do país? Nesta instituição, em particular, causa tristeza ver o abandono em que se encontra um dos seus campos principais, o do Maracanã, onde o mato no estacionamento já chega a quase um metro. Para mim, causa espanto ver o governador em exercício "brincar" durante as entrevistas que concede, "pedindo um dinheirinho" para os repórteres. Diante da gravidade da situação, esse tipo de "chiste" é totalmente inapropriado.

Brincadeiras à parte, não vi ainda nenhuma disposição para buscar a solução para a questão da greve e a consequente e tão esperada volta às aulas. Ao contrário. O que vi é a convocação dessas autoridades e da Secretaria de Segurança do Estado com o objetivo de traçar um plano para a desocupação das escolas. Eu pergunto a vocês, após a desocupação, o que virá? Quais serão os próximos passos? Vocês irão assumir, de fato e de direito, com responsabilidade, critério e comprometimento a administração dessas escolas, incluindo pagamento dos funcionários, servidores e terceirizados, garantindo o funcionamento das escolas de forma plena e saudável? Sim, porque depois de todo esse tempo, é isso o que espero.

É inadmissível ver tantas crianças, adolescentes e jovens sem aulas por tanto tempo! 

É inadmissível ver o descaso com que são tratados os profissionais dessas instituições!

É inadmissível ver o desmazelo e precariedade dos ambientes escolares!

Há dois meses para o início das Olimpíadas 2016, fala-se muito em legado, em benfeitorias para a cidade do Rio de Janeiro, capital do Estado do Rio. Eu pergunto, que legado pode advir para esta cidade olímpica, diante do quadro desolador da educação em todo o Estado do Rio de Janeiro?

Por isso, caros secretários, caro governador em exercício, lideranças do movimento, deputados, enfim, todos que podem, de alguma forma, responder aos anseios dos estudantes, dos professores, dos pais, dos técnicos, dos profissionais terceirizados, entre outros, POR FAVOR, não percam mais tempo! Reúnam-se! Conversem! Decidam! Entrem em um acordo que priorize a prestação de um serviço de excelência, como a educação, e valorizem os profissionais responsáveis pela realização de um trabalho de suma importância para o estado e para todo o país. Sejam vocês, autoridades gestoras dos recursos públicos, o legado que este Estado está precisando! Legado de boa administração, de transparência, de comprometimento, de cuidado, de responsabilidade! O povo do Rio de Janeiro agradece!

quinta-feira, 5 de maio de 2016

SENSAÇÃO TÉRMICA.

Não sei vocês, mas não me lembro de ouvir falar tanto em "sensação térmica", como nos últimos tempos. Confesso que isso me intrigou. Fiquei pensando se minha memória estava me pregando uma peça e descobri que há uma grande possibilidade disso ter acontecido. Sabe por quê? O termo "sensação térmica" não é tão novo, existe desde a Segunda Guerra Mundial.  


Certamente, ninguém se esqueceu das aulas de história e deve recordar do fracasso da invasão alemã à Rússia, quando os soldados invasores não resistiram ao rigoroso inverno russo. Pois é, a partir deste fato, foi criado um índice de avaliação da sensação térmica, levando-se em conta a velocidade do vento e a umidade relativa do ar e não só a temperatura aparente registrada nos termômetros.



Para quem vive no Rio de Janeiro, por exemplo, onde a sensação térmica no verão tem chegado a cinquenta graus, o vento, ou até mesmo uma brisa tímida são muito bem-vindos, porque diminuem a sensação de calor, já que o vento intensifica a evaporação da água do nosso corpo e isso faz baixar a nossa temperatura. Em um verão de cinquenta graus essa sensação é muito agradável. Porém, em um inverno rigoroso como o russo, uma rajada congelante pode complicar a situação da pessoa que está exposta a essas condições, causando até hipotermia, isto é, quando a temperatura do corpo cai abaixo do normal.





Com as alterações climáticas constantes e em curso no nosso planeta, fruto da imprevidência e do descaso com o meio ambiente, cada vez mais ouviremos a expressão "sensação térmica", seja para falar do calor escaldante, ou do frio congelante.

quarta-feira, 16 de março de 2016

CRÔNICA DO DIA: O CAFÉ.

A empresa havia comprado uma máquina nova de café. Os funcionários ficaram eufóricos. "Será que o café dessa máquina é melhor do que o da outra?", perguntavam-se. A ansiedade dissipou-se logo após a instalação. As tais máquinas ofereciam três tipos de café - suave, forte e tradicional. Todos estavam encantados com a novidade e a variedade das opções oferecidas. 




Passada a empolgação inicial, começaram os comentários a respeito do café. Uns acharam fraco. Outros forte. Outros levantaram a questão da higiene da engrenagem. Outros ainda, alegaram que a água utilizada pela máquina não estava própria para o consumo. Enfim, a máquina de café era o assunto predileto da chamada "rádio corredor". E as manchetes das matérias dessa rádio, tão popular em ambientes corporativos, não eram nada boas... 

Foi então que alguém levantou a voz para trazer uma solução que pretendia salvar os paladares mais apurados no quesito "café". "Que tal comprarmos uma cafeteira com os nossos próprios recursos e fazermos o nosso próprio café?", sugeriu uma voz. A ideia foi simpática a muitos e nos dias que se seguiram a movimentação foi grande para alcançar o novo objetivo da equipe. Pesquisa aqui, pesquisa ali. Por fim, encontraram uma "maravilhosa", que atenderia a todos magnificamente. Iniciou-se o rateio. Todos os participantes da nova empreitada colaboraram.

Finalmente, ela chegou! A animação foi geral. Todos queriam estrear o novo "brinquedo". Sim, brinquedo. Pareciam crianças diante de um novo presente, que há muito sonhavam. Estabeleceram regras para o uso, como quem faria o café, quem limparia a engrenagem, quem compraria o pó de café, o açúcar e por aí vai. A empolgação só aumentava. As tardes ficaram até mais doces. Bolos eram comprados para acompanhar e dar mais sabor ao momento do cafezinho. Imaginem o cheiro prazeroso que invadia o ambiente, quando chegava a hora do café. Um aroma convidativo, posso garantir!

Tudo ia bem, até que velhos costumes começaram a vir à tona. Os homens foram deixando de mansinho a tarefa de fazer o café. Vez ou outra, um deles aventurava-se na função e ainda se autoelogiava, afirmando que "o seu café sim, era café de verdade", mesmo que ele só o fizesse esporadicamente. Como somente as mulheres passaram a dividir a tarefa, iniciou-se, entre elas, uma vigília para ver quem estava colaborando. Começou o disse-me-disse. Ouvia-se a "boca pequena" coisas do tipo "fulana nem encosta na máquina para fazer o café e ainda tem a cara de pau de perguntar se tem café fresco logo que chega". "Mas que café ruinzinho. Não sei como uma pessoa assim se diz dona de casa". "Não sei não, mas acho que não vou participar mais do rateio, só eu faço café". "Se eu não chegar cedo, não tem café".

E o que era um prazer inenarrável começou a desencadear atritos. As pessoas entreolhavam-se com ar indisposto. Antigas antipatias começaram a vir a tona e com isso, um depois outro foi desistindo da empreitada e retornaram para a máquina de café, que mantinha-se pacientemente firme aguardando seus clientes. 

Os dias transcorriam felizes e laboriosos. A máquina de café voltou a ativa freneticamente. Durante um tempo... Não muito. Até que alguém começou a notar certas imperfeições naquele café tão... "Mecânico"! "Esse café é tão sem gosto!", dizia um. "Muito forte esse café", dizia outro. De repente, alguém notou em um cantinho da bancada a esquecida e empoeirada cafeteira e teve uma brilhante ideia: "pessoal, por que não usamos a cafeteira para fazer nosso próprio café?", sugeriu o criativo funcionário. As pessoas gostaram da sugestão e começaram a estabelecer os regulamentos para o uso. Assim, mais uma vez, a máquina de café entrou de férias. Férias? Sim, férias. Já, já, ela volta ao trabalho. 




quarta-feira, 9 de março de 2016

CRÔNICA DO DIA: MULHER!

Há quem considere desnecessário comemorar o Dia Internacional da Mulher. Afinal, todos os dias são nossos. É o que dizem. Outros o acham imprescindível como forma de valorizarmos quem há muito não tinha voz.


É verdade, muito já se conquistou... 


Por necessidades orçamentárias nos foi permitido trabalhar. Assim, assumimos a contribuição monetária ao orçamento familiar e continuamos com as nossas tarefas domésticas. Afinal, trabalho de casa é coisa ainda de mulher para muitos hoje em dia. Não tínhamos direito a voto, não tínhamos direito a opinião e até o famoso CPF (Cadastro de Pessoa Física) tinha o mesmo número do marido. E isso não faz tanto tempo assim. Uma amiga de 65 anos ainda conservava, até bem pouco tempo, o mesmo número de CPF do marido.

Pois é, o tempo passou e quando olhamos para trás, percebemos que já conquistamos muitas coisas. Mas ainda há muito por fazer. Continuamos travando pequenas batalhas diárias pelo respeito e reconhecimento. Ainda precisamos muito do amparo da lei para nos sentirmos seguras e com nossos direitos assegurados. Vejam o exemplo de alguns grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, que estabeleceu o vagão rosa no Metrô, exclusivo para mulheres, vítimas de assédio, no horário do rush. Grande parcela da população não gosta dessa lei, até mesmo mulheres, pois a acham segregacionista e consideram que a educação e o respeito deveriam ser ensinados desde os anos iniciais na escola. Sim, educação é a base de tudo. Concordo. Até porque a criação dos tais vagões indica que consideramos os homens seres um tanto quanto irracionais, que não conseguem domar seus instintos. Porém, o trabalho junto às crianças só será percebido mais adiante. O que faremos com as vítimas do agora? Enfim, muitas vezes, medidas consideradas inadequadas visam proteger quem não tem como se defender em determinada situação. O debate continua. 

Mas nesse dia em que comentamos sobre direitos adquiridos, lutas vitoriosas e sonhos que se realizaram, uma pessoa me veio a cabeça: minha mãe. Nascida durante os anos 1920, minha mãe, criada sob rígidos costumes, teve que deixar a profissão que amava, o magistério, logo após o casamento e a chegada repentina do primeiro dos seus cinco filhos. Não porque o marido a proibiu, embora nada fosse facilitado. Ela simplesmente não tinha com quem deixar meu tão querido irmão mais velho. Sua mãe, minha avó, lhe disse: "lugar de mulher é em casa cuidando do marido e dos filhos", sentenciou.

Assim, o magistério perdeu uma excelente professora e o lar ganhou uma das mães mais dedicadas, carinhosas, batalhadoras, amigas que eu pude conhecer. Muito antes ainda da minha chegada (sou sua quinta filha, a chamada temporão, nascida com uma diferença de quase dez anos para a minha irmã), a situação econômica da família se agravou e minha mãe teve que contribuir com as despesas da casa, como costureira, afinal era o que podia fazer com quatro filhos sob seus cuidados. 

Os anos se passaram, outros trabalhos vieram, muitas lutas, muitas dificuldades e, finalmente, cheguei eu. Talvez eu tenha chegado em um dos seus momentos de maior turbulência, quando a situação financeira da família estava no ápice da dificuldade. Posso imaginar a angústia da minha mãe ao perceber que mais um membro ia agregar-se àquela situação difícil. Curiosamente, após a minha chegada, com os meus irmãos já crescidos, minha mãe foi trabalhar no ambiente que mais amava: uma escola! Não como professora e sim como responsável pela livraria da instituição. E o melhor de tudo, pode me levar com ela. Desta forma, tive a oportunidade de crescer em meio aos livros e ao lado da pessoa mais especial que conheci. Passava o dia na escola. Estudava pela manhã e no resto do dia, dividia meu tempo entre a biblioteca e a livraria. Ou, muitas vezes, brincando sozinha pelo pátio, pois meus amigos já tinham ido para casa. 

Minha mãe trabalhou lá até se aposentar. Eu saí de lá para a faculdade. Não vou dizer que a vida foi fácil. Não. Em termos materiais, o dia a dia continuou sendo de muita luta. Mas fui feliz ali. Muito! Eu tinha ELA, minha mãe! Os livros! Os amigos que fiz para toda a vida! 

Então, no dia em que todos celebram o nosso dia, as vitórias, as conquistas, eu decidi homenagear a ela. Nunca vi minha mãe queixar-se, gritar, maldizer. Algumas vezes, a percebi cansada, desanimada. Mas não podia esmorecer. Sua família dependia da sua força, da sua conduta. A dignidade, o caráter, o carinho, a dedicação, a suavidade forte fizeram da minha mãe um exemplo. De vida. De amor. Todo o meu carinho, todo o meu amor, todo o meu respeito são para você, MÃE!!!